São 17:10 da tarde e já está tudo escuro, deveria dizer "17:10 da noite", então. Hoje faz dezoito dias que estou em Tel-Aviv, e começo a ter a impressão de que algo começa a se decantar na minha percepção das coisas. Já toquei neste assunto, sobre a mudança das perspectivas, etc. Quem já morou no exterior acredito que saiba o que quero dizer, mas não acho que seja imprescindível ter tido esta experiência para entender. Explico, hoje vinha caminhando aqui para o campus e vinha pensando que Tel-Aviv é uma cidade como outra qualquer, e por que não seria?
Ontem li um artigo sobre o problema da prostituição em Israel, caso sério, seríssimo. Em Yafo, o Dascal me disse, é preciso tomar cuidado para não ser assaltado. Quer dizer, Ramat-Aviv não representa toda Tel-Aviv, e muito menos todo Israel. Já era de se esperar, até aí tudo bem. Na ida a Jerusalem (Yerushalaim, em hebraico) íamos conversando como Israel havia se tornado um país como outro qualquer, com os problemas de todos os lugares, corrupção, criminalidade, etc., isto é, os próprios israelenses começam a ter a sensação de que um velho ideal, de um estado novo e planejado para evitar os males de outros e outrora estaria se perdendo. Talvez eu devesse ter dado a este post o título "Tel-Aviv, planeta terra", mas fica pra outra oportunidade, mais adiante.
Na conferência em Jerusalem um dos membros palestino da mesa, que era composta, como disse, por três israelenses e três palestinos, narrou sua experiência de ter permanecido quatro anos numa prisão militar israelense após ter sido preso acusado como terrorista. Hoje, após ter conseguido se formar em direito, se diz bastante desiludido com o movimento de resistência palestino e que desde a última intifada (em 2000) tem passado a questionar certas práticas de resistência. No fim da palestra, eu conversava com o outro palestino, o jornalista que mencionei, sobre o papel da mídia no conflito quando este ex-prisioneiro e atual advogado chega perto de nós entra no círculo da conversa (ele e o jornalista haviam sido colegas de prisão), eu agradeci pela exposição do seu testemunho durante a mesa e ele perguntou de onde eu era, eu disse "do Brasil", e ele disse que nunca havia encontrado com nenhum brasileiro, e eu respondi que também nunca havia encontrado nenhum palestino, antes. Nos despedimos, na saída do campus, olhei para trás e vi ele dirigindo um mercedes parecendo novinho em folha.
No centro da Jerusalem oriental, paramos numa verdureira e fiquei olhando em volta, vi uma mercearia e fui até lá, só pra ver o que tinha. Dois homens sentados do lado de dentro conversavam. Me apresentei, eles me cumprimentaram, perguntaram de onde eu era, eu disse "Brasil" (puxando pelo acento inglês da palavra), me olharam e se pergutaram um ao outro "onde ficava?", antes que eu explicasse o outro disse, "ah, sim, Brasil" (com o acento arábe, que é bem similar ao francês), "football", disseram, e eu disse, "yes". Aí estava tudo bem, comecei a perguntar o que era isso, o que era aquilo, um pouco de tudo que eu via pela minha frente, eles me explicavam com bastantes detalhes, depois de alguns minutos agradeci, disse que tinha sido um prazer conhecê-los e eles me disseram a mesma coisa e disseram pra voltar ali quando eu estivesse novamente na Palestina.
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4 comentários:
A mudança de perspectiva a que te referes, senti-a profundamente, em muitas, muitas, coisas. Mas o que mudou mesmo para mim, à época, é que me descobri pertencendo a um lugar, sendo de um país, de um continente e com uma língua. Irrecuperável.
A utopia e pensar que podemos viver fechado no nosso canto, so se tera a felicidade quando compreendermos que todos, aceitando as nossas diferenças, fazemos parte de uma realidade so.
Gosto da sutileza da tua escrita. Dessa capacidade de "dizer sem dizer", de compartilhar com o leitor as "sensações". É quase como se pudessemos "olhar pelos teus olhos". É muito bom.
Muito incrível sua passagem por Jerusalem oriental assim logo de cara e muito interessante mesmo seu relato. Aproveito tb para te pedir a referencia do texto do Canetti sobre diarios.
E como Paul Marc disse em outro lugar, estamos todos no mesmo planeta, essa que é a real.
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