terça-feira, 6 de novembro de 2007

O encontro com Marcelo II

este post é a segunda parte do de ontem. Incluirei aqui o que deixei de fora no anterior. Ontem o dia foi cheio hoje não foi diferente. Tornou-se inpossível registrar tudo o que eu vejo e o que me acontece. O número de leitores cresce a cada dia, cada vez mais comentários são feitos, vou manter a prática de mencionar os comentadores. Recebi um comentário preocupado da Nadja, que já expliquei quem é (veja o post de ontem) a respeito do uso de pochete. O que ela diz não é de todo descabível, e ela está totalmente certa quando diz que "do nosso ponto de vista" daí eu poderia ser confundido com um homem bomba. Deus me livre! (os judeus escrevem assim D*us). Não sei bem por que, mas tem a ver com algo como não poder pronuciar o nome de Deus, que aliás são vários, muitos, muitíssimos, se não me engano mais de 70. Desculpem minha ignorância, mas sou novato no tema. Poderia dar uma lista de referências sobre o tema do judaísmo, mas não agora. Consultem, os interessados, o catálogo da editora Perspectiva, eles têm ótimos títulos. Antes de sair aí do Brasil eu estava lendo "A filosofia do judaísmo", um livro escrito nos anos 30 por Julius Guttman, em que faz um apanhado da filosofia judaica, primeiro em relação ao helenismo e depois em relação a tradição judaica propriamente.

Bom, mas não se preocupem poir por aqui já vi outras pessoas usando pochete. Gente, acreditem, e eu sei que muitos acreditam e sabem, ninguém aqui parece estar preocupado com homens bomba, a segurança é uma questão corriqueira porque o seguro morreu de velho. Revistam você pra entrar em qualquer lugar, até no campus da universidade, é verdade. E o engraçado é que já notei que eles possuem uma técnica específica, você abre sua mochila ou bolsa e eles botam a mão por baixo dela, num gesto como se pesassem. Dão uma olhada rápida e pronto. Hoje no supermercado dos estudantes, onde comprei pão e humus caseiro (humus baiti) o segurança olhou pra minha cara e disse pra eu entrar, não me revistou. Hoje de manhã quando fui fazer o nivelamento de hebraico no Ulpan (que aliás como eu já sabia fiquei no nível básico) entrei e o segurança parece nem ter me notado, quando voltei na rua ele me pergutou se eu tinha sido "examinado", disse que não e perguntei se ele queria examinar, ele disse que não.

A questão do Ulpan, vocês imaginem o que é fazer uma prova tendo diante de você uma língua que você não entende praticamente nada e que mal conhece as letras. Pois é uma situação muito comum para muitas pessoas, mas imaginem ter que responder perguntas nestas condições. Pois eu tentei, e alguma coisa eu fiz. Claro eu já estou alfabetizado (aleph-betized (sic), já conheço as letras). E eu tentei ler, enunciado por enunciado, questão por questão e a cada termo que eu identificava, tentava estabelecer uma relação com o que eu imaginava que estava sendo perguntado (fazia isso pela estrutura do exercício), e vias a alternativas e tentava responder. Resultado, acertei duas. Começo amanhã. Sei que apenas seguir aprendendo aleatoriamente no dia a dia, vai me levar a um ponto em que não vou progredir mais, o maximo a que poderia chegar é conseguir me comunicar no cotidiano, e isso se aprende rapido, podem acreditar. Mas o que quero é poder ler e participar de uma conversa elaborada, assitir uma aula, por exemplo, ver um filme e poder até mesmo escrever, se for possível. Um ano só sei que não vai ser suficiente, mas quero aproveitar ao máximo. Vou ter aula duas vezes por semana, de 2:30 cada. Tinha a possibilidade de intensivo, 5 horas por dia, 5 dias por semana, mas seria demais pra mim, e tenho muitas outras coisas pra fazer.

Por exemplo, hoje o Dascal me convidou pra ir a Jerusalem na próxima semana. Um congresso intitulado "Dialogue under Occupation", a se realizar na Jerusalem oriental, no meio do terreno conflituoso. Então preparem os corações aí, brasileiros todos, estou indo ver os palestinos de perto mais cedo de que esperava. Recomendo a leitura do livro "Eu vi Ramallah" de Mourid Barghout, autor palestino que conta seus infortunios de 30 anos de exílio. Ramallah é a capital da Palestina (Cisjordânia). O Dascal vai participar de uma mesa, lá nesse congresso e eu vou assistir e aproveitar pra olhar em volta, ver como são as coisas.

Recebi um comentário da nossa colega Virgínia Kuhnen, grande colega do tempo da Univali em Itajaí. Casada com o escritor, poeta, editor, e artista plástico Rogério Lenzi. Grande surpresa, fico muito feliz de receber notícias de vocês. Eles moram em Navegantes e já fizemos algumas juntos.

Isso foi o que aconteceu hoje, ontem foi o seguinte: quero retomar o assunto da minha colega alemã aqui pela última vez. Acho que devo. Ontem o Dascal me perguntava como eu estava morando e tal. Eu disse e comentei que havia uma colega, "alemã coitada", e ele disse, "isso tá me cheirando a racismo". Ele é assim, não se preocupa em dizer o que pensa e acho que está tudo bem. Pensei um pouco sobre o assunto. Eu falei em ton de piada e ele não fez o comentário em ton de censura. O que eu pensei foi que mesmo que eu não tenha intenções racistas ou preconceituosas (e isso não posso negar) o equívoco está na genralização. Não tenho como me defender e nem vou fazer. Fica por isso mesmo, o preconceito é a base do conhecimento desde que não se satisfassa com o primeiro. Por isso estou tranquilo, nao costumo me satisfazer com nenhuma sabedoria, pra mim são todas passageiras.

Quando relatei o falatório com o meu colega Kobi, que aliás esqueci de dizer que é judeu filho de mãe iraquiana e pai marroquino, mostrei só o lado positivo da questão. Lados negativos há muitos, mas não estou com cabeça pra explorar. Este blog vem recebendo um número crescente de leitores, e já começo a sentir o peso de uma certa responsabilidade. Várias vezes fiquei pensando se uma coisa dessas seria possível, encontrar um público que interagisse desta forma. Aqui está. A Clara comentou comigo a respeito de uma artigo que ela leu que questionava o estatuto de gênero textual do blog. Parece que o argumento do autor era baseado num certo hibridismo que o blog possui. Quem sabe se o Prof. José Luis Meurer (grande Zé!) estiver lendo este, ele tenha algo a dizer. Eu não sei. De minha parte pensei que, assim que tiver fotos pra mostrar, vou preferir abrir um fotolog linkado por aqui. Achei que colocar fotos aqui iria estragar tudo. Que vocês acham?

O Paul-Marc, de Paris, está super empolgado com estas minhas notícias israelenses, hoje conversei um pouco com ele. E o Juliano Binder e sua esposa Schar, de Milão, também estão acompanhando. Como ele diz, agora ele é um cidadão europeu (risos), ele acaba de receber a cidadania italiana, não foi fácil, não é mesmo brother? O binder merecia uma postagem inteira só pra contar como é essa figura. Alías acho que todos os meus leitores são caracteres interessantes, eu poderia falar horas deles. Paro aqui, depois se lembrar de algo mais, volto a escrever. Desculpem não ter separado as noticias de hoje num post a parte.

2 comentários:

Professora Clara Dornelles disse...

Pois é. A dinâmica do blog do Rodrigo me deixou curiosa sobre o funcionamento desse gênero. Dei uma espiada na internet e o primeiro texto que achei sobre o assunto é esse que segue no link, para os interessados. Até. http://www3.unisul.br/paginas/ensino/pos/linguagem/cd/Port/9.pdf

Carla Reichmann disse...

A Carolyn Miller fala sobre o assunto, ela apresentou aqui na UFPB o que imagino tenha discutido tb lá no SIGET.
bjs!