Como vocês já devem ter notado, o Ulpan é uma escola de hebraico. Os programas são desenvolvidos primordialmente para imigrantes, depois turistas e interessados em geral. Ontem fui a aula pela primeira vez. Eis minhas impressões. Cheguei um pouco antes e fiz minha inscrição, 940 shekels pelo semestre de 5 horas semanais, este valor corresponde mais ou menos a uns 470 reais. A escola de hebraico é um centro bastante organizado e com vários grupos de estudantes. No meu grupo estão matriculados aproximadamente uns 30 alunos de todas as partes do mundo: Filipinas, Tailandia, Bolívia, Irlanda, Espanha, Turquia, Grécia, EUA, Alemanhã, Rússia, Brasil (eu). Assim que entrei na sala, cinco minutinhos antes, tive uma sensação de estar entrando em uma turma dessas de escola de ensino básico que temos aí no Brasil, primário e ginásio (como se dizia no meu tempo). Os filipinos são maioria, aprox. uns 8, o resto no máximo uns dois de cada dos mencionados. Eu nunca havia encontrado nenhum filipino e, desconfiado como já disse que sou, comecei a estranhar. Fui sentar exatamente por perto de um dos mais "bagunceiros", que depois, logo em seguida, vim a perceber que o Tchodi, esse é o nome dele, é apenas um pouco bastante expressivo. Horário da pausa. Os filipinos vêm e começam a se apresentar a mim, dizem o nome e apertam minha mão. Um outro, Alex, me pega e diz, "vem, vamos descer". E eu, ainda desconfiado, disse "ok, já vou indo". Fiquei um pouco pela sala pra ver o que acontecia, olhei em volta, irlandes, americano, alemão, senti um certo frio, com exceção de uma garota que chegou tarde e viu que eu sabia ler em hebraico (ler aqui significa ler os sons das letras nas palavras sem saber o que está escrito) e ficou me perguntando coisas. Resultado, desci e fui ver onde estavam os filipinos. Lá embaixo, me enfiei no meio deles e conheci mais alguns, filipinos são muito mais como brasileiros, e desculpem-me a discriminação que pode estar embutida na generalização, eu mesmo não acredito nela.
Fim da aula. Dois filipinos me pegam e dizem pra ir com eles. Senti uma desconfiança enorme. De repente percebi que estava indo para um lado da cidade que não conhecia. Parei e disse, "esse aqui não é meu caminho, eu preciso ir pela Arlozorov". E eles, "Mas pra que você vai pela Arlozorov?", e eu, "Pra pegar o onibus 25 na Ibn Gvirol". E eles, "Vem por aqui, é mais perto, nós também vamos pra Ibn Gvirol", aí eu disse, "Olha lá hein, eu não conheço esse lado da cidade". Fui e descobro um pouco mais dos filipinos. O negócio é que eles (pelo menos os dois que me acompanhavam) estão muito a vontade em Israel. Alex, o mais velho, está aqui há 25 anos e seu filho está no exército (Vocês fazem idéia o que é ter um filho no exército israelense, ou não?). Djune, o outro tem filho de 14 anos. O que descobri é que os filipinos aprendem espanhol na escola, mas não sabem necessariamente falar, que sua língua possui uma quantidade grande de vocábulos do espanhol (5.000 me disseram eles) e que são cristãos. Alex e Djune são praticantes e vão à igreja todo domingo. Me perguntaram se no Brasil comemorava-se o natal, eu disse que sim, e me disseram que eu poderia passar o natal com eles, pois em Israel o natal era muito estranho, "um dia comum, como qualquer outro", disseram. O que eu não disse a eles é que uma das coisas que eu estava gostando em Israel era de não ter que comemorar o natal, porque não suporto essa época aí no Brasil, geralmente fico de mal humor. O que falei foi que no Brasil havia um apelo comercial muito grande, uma comilança (não falei nesses termos) exagerada em família, onde tudo parecia que estava as mil maravilhas e que havia um papai noel barbudo todo encasacado no maior calor de desembro. E eles disseram que nas Filipinas era igual e que eles adoravam! Não toquei mais no assunto. Em fim, chegamos na Ibn Gvirol e ainda por cima fizeram questão de ficar comigo no ponto de ônibus até o numero 25 chegar.
Se eu fosse descrever cada figura que tem na sala de aula, teria que fazer uma postagem especial pra cada um. Quero apenas registrar que eu destôoo (destoar) bastante do resto da turma. São todos trabalhadores, na maioria, que vão para a aula depois de um dia cheio de muito trabalho. Há algumas excessões com o Irlandes que trabalha nas relações internacionais (é embaixador, dizem os filipinos, fazendo cara séria de importante) e mais um outro engravatado, que também parece britânico. Quando a professora perguntou o que eu fazia, começou a confusão. Pra encurtar e facilitar, aqui eu digo que estudo filosofia. O que não é mentira, faço isso pra não entrar em detalhes desnecessários. Eu disse que era estudante, e ela disse "você é estudante 'aqui' no Ulpan?" (Estavamos falando em hebraico) e eu disse que era na Universidade de Tel-Aviv. Isso causou um certo impacto, além de mim tem apenas mais uma garota na turma que estuda na universidade.
Como disse, não entrei em detalhes. Eu estava lá pra aprender hebraico e não pra dar informações corretas. Passou, quando ela veio até mim perguntar o que eu fazia em Israel eu disse que estava aqui fazendo um ano do meu doutorado e ela perguntou há quanto tempo estava aqui, eu disse 7 dias, a turma inteira caiu na gargalhada. Da turma, quem esta a menos tempo aqui, fora eu claro, é uma mulher russa que está aqui há 10 meses, que sentou do meu lado e que não fala inglês. Em geral eles moram longe, e se você diz que mora em Ramat-Aviv, eles abrem a expressão e dizem, uau!, como a garota que atende na loja de produtos naturais que encontrei na Arlozorov, e me perguntou se eu era americano ou o que? A garota da turma que tambem estuda na TAU e parece ser espanhola tem aquele ar caracteristico de aluno de graduação. Entenderam por que eu destôo. Além disso, se não batasse, eu já sou alfabetizado em hebraico, como já expliquei. Todos na turma falavam hebraico, menos eu. Ninguém sabia ler ou escrever, só eu. Principalmente os filipinos, ficaram muito espantados com uma coisa dessas, como podia? Eu disse que tinha estudado um pouco de hebraico no Brasil, mas que o contexto não proporcionava a prática oral da língua, era por isso. Depois da mulher russa que está aqui há 10 meses, as médias aumentam bastante, 1 ano, 2 anos, 4 anos, 7 anos, 10, 14, 20, 25 anos. Imaginem vocês, 20 anos num país, falando a língua pra tudo que você precisa fazer com ela mas sem poder ler, ou escrever? Não é a esta condição que aí no Brasil nos referimos comumente por analfabetismo?
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4 comentários:
Achei demais seu contato com os filipinos, porque sempre achei que o brasileiro tem un geito parecido com o oriental continental, excluindo assim o japao. Meu professor de acupunctura, chinês me falou logo apos as primeiras aulas, com esses franceses nao da, voce pelo menos e como a gente. Achei egraçado na época.
Até.
Paul
Oi Rodrigo, pronto, cá estou, engrenando. Muito legal vc estar compartilhando todas estas experiências,com tanta gente, por vários motivos - o valor é imenso. Sim, a condiçao que vc descreve, de analfabeto funcional é muito singular. Estou relendo "Night". Bem, e aguardando Ramallah... lembro-me de ir lá uma vez à noite, com um amigo, buscar o irmão dele, servindo "miluim" (reservista). Outros tempos...
Dom Rodrigo: me é gratificante ler tuas impressões sobre Tel-Aviv (além da surpresa em tê-lo aí).
Creio que não deverias colocar fotos neste blog, pois tua prosa desenha as imagens com sabor.
Segue, prá ti e prá Clara, um presente meu e de Virgínia:
É manhã em pleno outubro de primavera e os garapuvus nos acenam dos morros em sua cortesia. São as manhãs mais ternas de todas as estações e seu frescor refrigera a alma, acalenta o espírito, fortalece o corpo. Todo o despertar em cantos de pássaros se faz ainda antes do aurorescer. E o dia plástico se nos apresenta.
Luz-fósforo. Leve o fogo que aos poucos suspende as cores - e ver um azul vazio no céu, o mar, logo as flores e as plantas; pessoas em marcha - calças, camisas, vestidos - multiplicidades que constróem seus movimentos para a dança inimaginável do que somos e do que fazemos. Abrem-se os círculos de convívio; abrem-se os pólos dos risos, das conversas e daquilo que inventamos para o agora.
Nesta manhã primaveril chamada outubro, invento o quadro deste percurso: digo-lhes bom dia e vocês sorriem. Assim os guardo no desenho da vida.
Obrigada, Rogério, obrigada, querida Virgínia!
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