Me recuperando do resfriado tenho aquela sensação de que a vida tem um sabor muito bom, que só percebemos em momentos muito específicos, pois afinal não é sempre que estamos radiantes a respeito de nossas próprias vidas. Falo daquela sensação que sentimos ao nos recuperarmos de uma doença qualquer, grave ou não, como que parecendo que entramos de volta no potencial de estar vivo, ou algo assim. Tenho percebido que bastante gente está com sintomas parecidos com estes meus, garganta inflamada, no supermercado, na rua, na universidade. Certamente deve ser uma espécie de epidemia, eu não esperava ser atingido neste momento, já que havia passado por uma gripe bem grave no Brasil, antes de vir para cá, e depois por que parece que quando se está em lugar estranho de alguma forma se está imune às viroses locais, mas como hoje tudo é global, quem duvida que uma epidemia destas possa se estender aravés dos continentes? O aumento do poder de comunicação também aumenta o poder de tansmissão de tudo que antes era circunscrito ao local, doenças inclusive.
Antes que começasse o shabat sai de casa e fui ao outro bairro aqui perto, Neve-Avivim, a procura de equinácea, um remédio natural, extraído de um planta que é bastante conhecida no hemisfério norte, a Clara havia me recomendado para a infecção na garganta. A planta possui a propriedade de ativar ao máximo o sistema imunológico e ajuda bastante em casos deste tipo. Encontrei uma farmácia em que consegui um bom preço pela remédio, sai satisfeito.
Quando voltava pra casa, resolvi atravessar através de um parque que fica ao lado da rua Tagore, vinha com certa pressa, pois já começava a esfriar e não queria dar chance ao resfriado de piorar. Quando saí do parque e ía pegar a calçada na Tagore vi um homem, vestido como ortodoxo, chapeu, casaco e calça pretos, camisa branca com algumas franjas aparecendo por baixo da camisa, usando barba. Alguns garoto passaram por ele antes de mim e disseram, "não, obrigado". Quando passei por ele, me ofereceu algo que não entendi, pedi desculpas (sorry), ele repetiu em inglês, continuei sem enteder, aí ele me disse, "você é judeu, não é", e eu disse que não. De repente começamos a caminhar, ele perguntou o que eu fazia, falei que estuva e ele deduziu que era na universidade de Tel-Aviv, eu disse que sim. Nosso diálogo ía meio truncado, eu perguntei e ele, o que ele fazia?, me disse que estudava a Torá, eu disse que já tiha ouvido a respeito do livro, ele me disse que era mais do que um livro, era um guia de como viver, em todos os aspectos, ele me deu alguns detalhes, e reparei que não era um homem, era um rapaz, jovem, talvez 20 anos, no máximo. Me explicou que a Torá tinha tais e tais partes e que os gentios (no caso eu) tabém podiam estudá-la, me falou da Guemara, uma das partes do "livro", aí eu perguntei o que acontecia caso ele se deparasse om alguma situação que não estava prevista no livro, como ele faria, e ele disse que não era possível, tudo estava lá, que o livro era uma explicação, ou um projeto para o mundo todo e que Deus tinha alguma coisa a ver com tudo isso, o que não compreendi bem. No fim da calçada, ele me cumprimetou, apertamos as mãos, ele me desejou uma boa vida (have a good life), eu disse obrigado e desejei o mesmo a ele. Nesse momento passava um homem com um cachorro bastante grande e o cachorro avançou no rapaz, mas o homem segurou o animal a tempo.
Vim embora, satisfeito por ter podido conversar com o rapaz, pois é possível ver vários ortodoxos pelas ruas e fico curioso pra falar com um deles, saber algo das suas vidas mas uma abordagem assim do nada não seria apropriada, há de se convir. Em casa contei a história para a Dorit e ela me disse que ele queria me vender alguma espécie de paramento, tipo uma fita ou tira de couro ou algo semelhante que se enrola pelas mãos, nos punhos e nos braços, e que desconheço a função. Ela disse que ninguém gosta dos ortodoxos porque eles vivem com o dinheiro nosso (dela como grupo não ortodoxo, ela queria dizer) pois eles não trabalham, não servem o exercito, vivem com dinheiro do governo, passam o dia estudando a Torá, em geral têm uma penca de filhos. Pelo jeito nem os cães ou os seus donos não simpatizam muito com eles. Já ouvi por aqui várias expressões de desagrado em relação a este grupo da sociedade israelense que segundo dizem chega já a quase 1/4 da população (nao sei ao certo, já ouvi cifras maiores).
Sei que este grupo não serve o exercito porque são contrarios à violência, e no tal artigo que li a respeito da prostituiçao em Israel, dizia que os ortodoxos são um dos grupos que utilizam com frequencia este tipo de serviço. Curioso como determinados grupos humanos na tentativa de preservação de certos princípios pelos quais pautam sua vidas específicas de grupo realizam práticas que são contrárias à sustentação do grupo humano como um todo, independente dos limites de filiação ou participação. Digo isso, porque o artigo dizia que os ortodoxos procuram a prostituição para não praticar sexo com suas proprias mulheres e que em geral não usam preservativos porque é contrário a algum de seus princípios que não sei qual é. A situação da prostituição se agrava quando as pessoas que oferecem este tipo de serviço não se encontram inseridos, são marginalizados e ligam-se à determinadas formas de criminalidade. A maioria das mulheres que trabalham neste setor chegam a Israel através do tráfico de escravos, pois esta é sua condição na mão de seus donos que as trazem principalmente da Rússia.
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