sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Como vim parar em Tel-Aviv

Como havia prometido, lá na primeira postagem, vou contar aqui sem me alongar demais como vim parar em Tel-Aviv. O porque vocês já sabem, vim para fazer um ano do doutorado com bolsa da CAPES, no programa de doutorado sanduiche. O outro porque, "porque Tel-Aviv" faz parte do "como" que vou contar. Em 2004 eu e a Clara nos afastamos da Univali e fomos de volta pra Florianópolis, fomos dar continuidade aos nossos doutorados, ela na Unicamp e eu na Ufsc, já que o trabalho na Univali não apontava pra algo muito promissor. Em 2005 a Clara foi para Toronto fazer o sanduiche dela lá. Meu doutorado na Ufsc estava empacando por vários motivos que não vale a pena discorrer. Certo dia, conversando com a Clara pela internet ela me mostra alguma coisa que não lembro bem o que era, talvez uma lista de linguistica que tem no Brasil, em que o Borges Neto fazia uma intervenção e não sei como fiquei sabendo que ele iria dar no semestre seguinte uma disciplina de filosofia da ciência. Isso era 2005, a disciplina foi no segundo semestre. Mandei um e-mail e ele me disse que claro, era pra aparecer. Nesse semestre eu viajava toda semana pra Curitiba, ía cedo de manhã, a aula era a tarde (segunda feira se não me engano), acabava a aula voltava pra rodoviária e pegava ônibus de volta pra Fpolis. Chegava em casa lá pelas 11:30 da noite, quebrado mas satisfeito. Fiz isso várias vezes, foram bons tempos aqueles, não só pela disciplina que eu fazia com o Borges, mas porque morar lá no Rio Tavares era realmente bom, praia do lado, e tudo mais. Nessa época o Pitoco ainda vivia e foi meu companheiro enquanto a Clara desbravava o Canada.

O curso do Borges era no formato de textos (primeiro) e seminários (depois). Na parte dos textos lemos uma texto do Dascal, que eu talvez conhece de nome, mas só, nem sabia ao certo. O texto era "Epistemology, Controversies, and Pragmatics" (1995). Quer dizer, o texto já tinha seus 10 anos e quando comentamos na sala eu me lembro de ter dito que tinha tido uma impressão muito boa do que tinha lido, que tinha gostado, mas que a matéria não era fácil, bastante complexa e elaborada. A partir daí, foi um crescendo de acontecimentos. Eu disse ao Borges que iria apresentar projeto e fzer seleção para o doutorado ali na UFPR e que iria colocar o nome dele na minha opção de orientação e ele disse que tudo bem. A partir daí começou nosso relacionamento, de leve. Ainda naquele semestre coube a mim apresentar o seminário sobre o Ludwig Fleck, "Genesis and Development of a Scientific Fact", um livro dos anos 30 em que o gênio do autor apresenta de maneira intrigante o surgimento de um conceito na medicina, pra ser mais exato na disciplina que estuda a origem das doenças (agora esqueci o nome) e ele tinha como foco a gênese do conceito de sífilis. O livro é fantástico e o Fleck e a história dele também. Eu já conhecia o livro e por isso escolhi, até mesmo porque niguém se arriscou a pegar esse quando o Borges apresentou a lista dos textos para os seminários.

Neste mesmo semestre fiz a seleção na UFPR e passei. Fiquei bem colocado e consegui bolsa, o que eu vinha tentando insistentemente na Ufsc e não conseguia havia dois anos pelo menos. Lá meu projeto em História e Filosofia da Linguistica (que na época era uma proposta de investigar o conceito de valor na linguistica saussureana) era repetidamente rejeitado pela comissão de bolsas e vários alunos de áreas estranhas à linguistica conseguiam bolsa na minha frente. Nós estávamos precisando de bolsa pois as economias da Unvali começavam a acabar e a manobra com a Ufpr foi realmente arriscada, foi um tudo ou nada. Passei na Ufpr com o mesmo projeto que não conseguia nada na Ufsc (o problema lá era a falta de pesquisa na linha que mencionei acima, apesar de formalmente existir o nome ninguém fazia e talvez ainda não faça pesquisa nela). Na Ufpr fui super bem recebido e logo me envolvi com várias pessoas.

Não houve planos para vir a Tel-Aviv, tudo foi decidido de repente. A única coisa que eu sabia era que queria fazer o estágio sanduíche e, como disse, desde a leitura do texto do Dascal até chegar aqui foram mais de mil capítulos. Um post só aqui no blog não daria conta de tudo. Na Ufpr, sob orientação do Borges Neto, mudei meu projeto de comecei uma nova pesquisa que em menos de um ano já estava definida. Quando entrei no doutorado, desde a Ufsc, eu já sabia que queria um tema, qualquer que fosse, bem definido, sem a possibilidade de dar chances a "temas passionais" em que o pesquisador está envolvido de forma que a tese é quase ele mesmo. Não. Eu sabia que não queria isso, e o Borges foi fundamental neste direcionamento, por que sempre existe a tendência a escorregar e começar a elaborar questões complicadas demais que não poderam ser respondidas no espaço de uma simples tese de doutorado. "Uma tese não é o projeto de uma vida" me lembrava o Borges e eu concordava totalmente com ele.

Em 2004 o Borges publicou o livro "Ensaios em História e Filosofia da Linguistica", que até o momento é o único no Brasil nesta área. Há outros livros e outrso pesquisadores que fazem historiografia linguistica ou analise do discurso da linguistica e outros livros tambem, mas nenhum com este enfoque que situa a filosofia da linguistica em relação à filosofia da ciência. Falar em filosofia de uma disciplina científica foi algo que aconteceu a partir de uma certo momento no desenvolvimento da filosofia da ciência e em que também não se podia mais falar simplesmente em história da ciência sem relacioná-la a questões epistemológicas. Na tradição de uma certa linha destas disciplinas, autores como Thomas Kuhn, Paul Feyerabend e Imre Lakatos formam como que a base, ou um núcleo de onde um pesquisador iniciante como eu pode partir para explorar e constituir seu próprio percurso.

Acho que deixei mais ou menos claro como foi que vom parar aqui. E vou repetir algo que venho dizendo a pouco mais de um ano, eu nunca pensei em vir pra Israel antes de um ano atrás, quando mandei meu primeiro e-mail para o Dascal e ele imediatamente respondeu com todo o entusiasmo que lhe é característico e também muito estimulante. Nem ele nem o Borges jamais deixaram de me apoiar no que foi preciso neste processo todo e ainda continuam a fazer o papel de formadores de novos pesquisadores que é um dos papéis que eles realizam muito bem. Só posso agradecer, obrigado.

Um comentário:

Anônimo disse...

E isso quando a gente deixa "fluir" as coisas da vida o caminho nos leva la onde nos devemos ir, ultimamante so vivencio isso. O amigo Paulo depois de 18 anos na europa voltou a Campinas ano passado e esta no eixo.
E uma questao de sinceridade...
Paul