A Carla Reichman deixou um comentário aqui e nos indicou o enderço de um site muito bacana sobre a cidade de Jerusalem, vale a pena conferir, a página possui bastante recursos interativos. O Jorge, de Curitiba, que já disse quem é, me mandou um e-mail fazendo alguns comentários mais detidos sobre os temas que venho abordando aqui e me faz um questionamento a respeito das práticas religiosas, do cotidiano, ou melhor, como eu percebo o cotidiano relgioso das pessoas aqui em Tel-Aviv. Posso dizer várias coisas. Antes de chegar novamente no tema sobre Jerusalem (e ao continuar a falar sobre a viagem de ontem, vou tocar tomabém no tema da religião) posso dizer rapidamente a vocês interessados neste assunto que tenho visto várias coisas interessantes por aqui. Antes de qualquer coisa, deixem-me dizer que meu interesse pela religião não é exatamente a de um praticante, sempre que converso com alguém sobre religião digo que me interesso pelo assunto de um ponto de vista filosófico. O Dascal que já tratou de questões sobre a religião usando a sua teoria das controvérsias, isto é analisou polêmicas envolvendo a religião, estabelece como forma de controle metodológico do assunto uma divisão em três tipos de abordagem sobre a questão das controvérsias na religião. Deixem-me ver se me recordo. Ele diz que pode haver três formas de abordar os debates religiosos: uma em que os argumentos do ponto de vista religioso entram em debate (ou diálogo) com um ponto de vista exterior ao discurso religioso (por exemplo, o científico ou o filosofico); um outro em que dentro de um determinado ponto de vista sobre a religião (uma doutrina qualquer, por exemplo) existem debates a respeito de um determinado tema, assunto, questão, tópico, etc. interno aquela determinada doutrina; e outro, finalmente, em que dois pontos de vistas que pertencem a doutrinas diferentes debatem a respeito da validade de itens, digamos, polêmicos aos dois lados. Não sei se ficou claro, mas é possivel perceber que duas destas abordagens podem ser ditas internas, produzem, quando o fazem, diálogos que pertencem aos círculos internos do pensamento religioso, enquanto que em outro, no primeiro, o discurso religioso entra em diálogo com uma perspectiva que é exterior ao seu ponto de vista. Esta divisão já é por si só bastante polêmica, e o estabelecimento destes limites entre perspectivas internas e externas não estão de modo algum livres elas próprias de controvérsias. Mas bom, tudo isso, pra dizer que qualquer coisa que eu expresse ou registre aqui sobre a questão religiosa, não só em Israel assim como de qualquer parte do mundo, faço do primeiro ponto de vista, em que a religião busca dialogar com perspectivas que lhe são alheias e que não pertencem ao corpo de sua doutrina, mas a de outras de natureza filosofica e por isso não compartilhando dos mesmo princípios que o modo religioso de tratamento de temas constrói.
Dito isso, vamos a algumas coisas que vejo por aqui. No campus da Universidade de Tel-Aviv existe uma sinagoga chamada The Cimbalist. Tem esse nome devido a sua forma arquitetonica que representa dois cimbalos, o que para quem não sabe com é o formato do pratos de uma orquestra. A construção é estilizada e chego a confundir címbalos com tímpanos, que são aqueles tambores que usa na orquestra, instrumento de percussão com altura regulável, isto é, é possível emitir um certo número de notas de uma determinada escala. Lá está a sinagoga, fica na parte do campus em que eu circulo, fica ao lado do Gillman, o prédio da filosofia e o que eu ainda não sei é se é possível entrar, qualquer um a qualquer hora no local, ainda não fui lá, apenas passei em volta, é uma bela construção. Além da sinagoga, já vi algumas vezes um rapaz que fica na entrada do campus, do lado de fora, todo paramentado, com vestes que não sei identificar, ele fica em pé, com um livro na mão, como se estivesse lendo, aparentemente rezando, e fica movimentando o corpo pra frente e pra trás. O curioso é que suas vestes incluem algo que é colocado na parte superior da cabeça, bem sobre o alto da testa e que parece ser feito de plástico na cor preta, tem a forma quadrada e é prezo por uma fita ou um elástico, não sei qual é a função daquilo, talvez sirva de antena, desculpem a brincadeira.
Além deste rapaz e de mais alguns outros que vejo vestidos de branco e preto, com chapeu e barba e que ainda não sei identificar, vejo varias pessoas comuns usando aquele pequeno chapeuzinho redondo sobre o topo da cabeça, mas não diria que a maioria das pessoas (dos homens) usa alguma vestimenta que funciona como identificação de alguma orirentaçao religiosa. O problema da questão religiosa em Israel passa por caminhos bem mais complexos dos que estes dos costumes, como por exemplo, o de não haver ônibus ou trem no shabat! Ontem quando voltavamos de Jerusalem, como o Dascal e sua esposa mais a fotografa iam para Yafo eu desci na esquina da Arlosorov com a Namir e resolvi (tive que resolver) vir caminhando, pois as 5 horas da tarde não tem mais transporte publico fucionando, por causa do shabat. Na verdade tem, pois vi vários micro onibus e alguns outros onibus (que nao me serviam e eu queria mesmo caminhar) circulando. Mas a partir de uma determinada hora, o serviço de transporte coletivo, praticamente para.
A sociedade israelense, me dizem, cada vez mais vem se secularizando e com isto alguns costumes se transformam, mas o processo é bastante lento. Talvez a questão primordial, na minha perspectiva, seja o de que o estado de Israel não é, e eu soube disso ontem, um estado laico, não de maneira explicita. Existe um certo acordo tácito entre tradição e contemporaneidade política que leva a situações do tipo em que o estado aqui não possua uma constituição nos moldes modernos do termo. Isso eu soube ontem pelo Dascal.
A história é longa, mas quero voltar logo para o assunto da viagem a Jerusalem. No caminho de volta eu comentava com o Dascal que não havia sido discutido questões de religião na tal mesa sobre o diálogo no conflito e que eu achava que esta era a questão central do problema. Foi aí que ele começou a me contar a história da formação do estado de Israel e como ele se fundou politicamente em relação à idéia de nação que se guia por um culto religioso comum. A não ser em dois momentos do evento, mencionou-se questões que tocavam o item religião, mesmo sem este estar no centro do problema. O primeiro foi quando avisaram na mesa que as falas e comentários deveriam seguir numa determinada ordem e os tempos respeitados porque num determinado momento tudo iria parar pois os palestinos mulçumanos deveriam fazer uma de suas orações diárias. Tudo bem, ninguém reclamou ou achou ruim, pelo contrário, todos fizeram o possível para respeitar a ordem. O outro momento, foi quando a garota israelense que trabalha nos assentamentos judeus no territorio palestino fazendo o levantamento dos procedimentos usados pelos colonos e de certa forma intermediando as relações fez um relato contando que um garoto de determinado lugar disse que se negaria fazer uma reverência de um minuto de quando soasse a sirene em homenagem aos mortos no conflito. Esta questão das sirenes é outro ponto que preciso explicar, para que entedam bem a questão. Não farei isso agora, basta dizer que em determinada datas em homenagem ou comemoração a certos eventos (como esse que mencionei, ou como o dia em que relembram o holocausto) soa uma sirene que é ouvida em todo o país e as pessoas param seus afazeres, os carros param nas estradas, conversas são interropidas durante um minuto. Mas o garoto se negava a reverenciar os caídos no conflito pelo fato de ser um evento promovido pelos israelenses, e a mulher que mencionei contou que perguntou a ele se ele não aceitaria comemorar também os caídos do seu lado, ele continuou sem se convencer até que chegaram a um acordo, após os dois lados cederem um pouco. Mas o que importa dizer aqui é que ao contar esta história a mulher disse que entre os israelenses percebia-se que eles consideravam este evento "de certo modo até mesmo como santo".
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4 comentários:
Rodrigo, só posso te dizer que acho incrível vc estar vivenciando tudo isso, incrível mesmo. Pois é, essa sirene é de arrepiar mesmo. Aí vai um endereço de um outro blog muito legal que está rolando, p/ vc arejar com a brasilidade...? Talvez nada a ver com sua viagem, mas tudo a ver com visão/cegueira:
www.blogdeblindness.blogspot.com
bjs
Os conflitos, as negociações dos pontos de vista e valores, os checkpoints e o rapaz rezando e se movendo pra frente e pra trás... Isso fez me lembrar do filme "Promises", apresentado a nós pelo Jorge. É um documentário que se orienta pelo ponto de vista de crianças israelenses e palestinas sobre o conflito... Tem um resumo muito bom do filme no link que segue abaixo. Em português o filme se chama: "Promessas de um Novo Mundo".
http://www.zetafilmes.com.br/criticas/promises.asp?pag=promises
Só uma correção, no link acima vocês encontram uma resenha crítica e não um resumo.
Daê Rodrigo...continuamos acompanhando e seu blog e cada vez mais impressionado com o teu talento em escrever e descrever as suas experiências por aí. Realmente como já comentaram neste blog, a leitura nos prende e dá sempre vontade de ler mais...muito jóia!!!!!!! Abração pra vc!!!!!!!!
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