sábado, 15 de dezembro de 2007

Uma conclusão - Normatividade

Vou aproveitar a oportunidade para fazer uma espécie de conclusão desta primeira etapa (um mês e meio) de postagens neste blog. Conforme o último post, algo mudou na minha forma de percepção das coisas aqui em Tel-Aviv, e eu já vinha anunciando desde o começo que isto iria acontecer. Por isso penso que seja preciso uma parada para repensar a forma destas postagens. Foi importantíssimo a interação com todos vocês que foram meus leitores, e que na verdade eram aqueles aos quais este blog se dirigia. Era pra mim que escrevia, mas era por causas dos leitores que se manifestaram de alguma forma que eu escrevia para mim. Os leitores foram a quem me dirigi, meus amigos e familiares, amigos que não falava havia tempo. Mas agora é preciso repensar, e já estou neste processo. Acho que agora arriscaria fazer uma análise de determinados traços do cidadão israelense, de Tel-Aviv, principalmente, mas também daquele Israelense abstrato. Quanto à identidade judaica, não sei bem o que e nem como dizer. Repito que aconselho que se procure os livros, que se desligue a televisão na hora do noticiário sobre o oriente médio e que não se leia no jornal as noticias sobre este tema. Fazer o que? Nesta nossa era da informação, as vezes a melhor maneira de ter uma possibilidade de obter informação confiável é não se informando. Reflitam, é isso que sugiro. Eu poderia sair escrevendo várias coisas, dizer isso e aquilo. Sou adepto da conversa franca e aberta e intensa, mas não sou maníaco pela falação ou prolixidade descontrolada, quando desatam a falar muito por perto de mim, minha tendência é me calar.

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Esse pedaço acima escrevi há vários dias. Iria publicar como uma espécie de conclusão da primeira etapa, como disse. Não fiz. Faço agora e acrescento um dado curioso que me aconteceu hoje.


Atravessei a rua perto de casa, na faixa, com o sinal de pedestres vermelho. Esperei os carros passarem, é claro. Não andei cinqüenta metros quando uma garota, uniformizada se aproximou e pediu minha identificação. Ela me disse: "Você não pode atravessar a rua com o sinal vermelho, é a lei, você pode receber uma multa". Eu disse, "obrigado pela informação, eu não sabia". Continuei andando para a universidade e no caminho fechou-se o ciclo de uma reflexão iniciada quase um mês atrás. Lembram quando contei um episódio parecido com esse? Daquela vez a "guarda" não me disse que eu não podia atravessar o sinal vermelho! Ela sabia que eu era estrangeiro, por que ela não me falou? Até hoje, quase dois meses, ninguém jamais tocou no assunto comigo ou perto de mim. Hipocrisia! Pura hipocrisia. A hipocrisia é um mal universal, o lado bom da hipocrisia eu não consigo enxergar. Mais adiante, todos parados, amontoados no pequeno espaço no meio da avenida. Um rapaz atravessa o sinal vermelho, claro, ele fez uso de sua capacidade racional, não havia nenhum carro! O medo é irracional, sem dúvida, e a normatividade da lei conta com o medo para ter efeito. O problema é que ao se deixar de lado a razão, quando se está entre o medo e a norma, apela-se à hipocrisia, aí está. Esta é a gênese da hipocrisia, entre a norma e o medo, quem poderia suspeitar desta origem dicotomica do hipocrita?

E eu, onde fico, com minha tese política de desobediencia civil, contra a hipocrisia, e enquanto estrangeiro? Continuo atravessando o sinal vermelho, não consigo fazer diferente. Claro que o que penso em fazer é tomar conhecimento da lei, e analisá-la. Pois tenho muitas perguntas e a garota de guarda não estava interessada em "filosofisses". Por exemplo: se atravesso a rua em um local sem faixa de pedestres? estou infringindo a lei? Se as duas da manhã, ou embaixo de um temporal, devo esperar o sinal abrir? Mesmo com a rua vazia devo esperar? E quanto a ineficiencia dos sinaleiros, que nem sempre são bem programados e fazem com que um grupo de pessoas fique amontoado no meio de uma avenida?

Como ja disse, a lei é irracional, ou possui uma outra forma de razão, o que é mais provável. Para o cidadão comum a razão da lei é o medo, de ser multado ou punido de alguma forma. Não é a base do medo que penso em uma sociadade melhor, pois que me multem, pago, e se puder não pago.

3 comentários:

Rogério Christofoletti disse...

Velho, que bom te reencontrar aqui. Outro dia, faz mais de um mês, encontrei Clara num dos corredores da Univali. Ela me disse dos seus planos e eu quase caí das pernas. Hoje, te leio aqui demoradamente. E com prazer. Vamos trocar mais palavras por email. abraço de urso.

Meu blog: http://monitorando.wordpress.com

alberto gonçalves disse...

Oi,R.
Esse teu post me lembrou uma música do Gonzaguinha, 'Geraldinos e Arquibaldos':

http://letras.terra.com.br/gonzaguinha/46276/

Felicidades em 2008!...

Ps. A propósito, eu tbém criei um blog, mas ele ainda está em fase de testagem...

Juliana disse...

Olá, mestre,
Passaste o natal com os filipinos, afinal?
Estava ouvindo algo que me fez lembrar de ti, então vim ler tuas últimas notícias e aproveito pra te deixar um abraço.